domingo, 21 de novembro de 2010

Como os nossos filhos

Já faz tempo, ouvi uma bela canção que falava sobre a tristeza de perceber que, apesar de fazerem tudo o que faziam, os jovens terminavam sendo como os seus pais. Essa era a impressão que se tinha no ano de 1976, quando Belchior compôs “Como nossos pais”, música que traduzia a frustração de uma geração que se dedicou com afinco a combater a hipocrisia e o status quo vigente na época. Jovens de classe média, que acreditavam ter o poder de mudar o mundo, mas que terminaram sendo forçados a admitir que a realidade era um jogo com regras pré-estabelecidas.
“Você pode até dizer eu tô por fora ou então que eu tô inventando”, mas, de lá pra cá, muita coisa mudou e, ao contrário do que os jovens daquele tempo sentiam, a contracultura terminou colhendo os seus frutos. Assim, tomando emprestados os versos de um artista da década de 80, podemos dizer que o “futuro não é mais como era antigamente”. Os casamentos, os homens, as mulheres, as relações das pessoas com o mundo e, especialmente, entre pais e filhos, deu um giro de 180 graus, ao final de cinco décadas de intensos tremores nas estruturas da sociedade.
E, mais uma vez, “é só você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem” e que aquela linda canção, hoje, não passa de um registro extraordinário de um tempo que não volta mais e que foi superado e substituído por uma era na qual os conceitos estão em constante crise, levando as pessoas a consumi-los depressa, face o fundado receio de que os valores - tal como no período da hiperinflação - mudem da noite para o dia.
Hoje, quantos de nós não gostariam de ser “como os nossos pais” ou - o que seria ainda melhor - “como os nossos avós” (afinal, muitos de nossos pais terminaram não sendo como seus próprios pais)? No entanto, aquele velho caminho natural das coisas parece ter sido interditado, de maneira a transformar a “vida adulta” numa meta difícil de ser atingida. Se é que ela um dia chega!
O resultado prático disso é que, por uma ironia inacreditável, na medida em que nos distanciamos daquele modelo tradicional dos nossos pais e avós, acabamos nos parecendo, cada dia mais, com os nossos filhos e, não raro, temos os mesmos gostos, os mesmos hábitos e - o que é mais louco de tudo - os mesmo interesses que os jovens de hoje em dia.
Prova disso é já se tornou comum, nos dias atuais, ver pais e filhos compartilhando a mesma paixão por vídeo games, equipamentos eletrônicos (smartphones, notebooks, consoles, aparelhos de mp3), redes sociais e rock`n`roll. Enfim, não existem mais aqueles conceitos de “coisa de velho” e “coisa de jovem”. Contudo, muito embora esse fato oculte a diferença de idade entre pais e filhos e nos induza a crer que o “conflito de gerações” foi, de uma vez por todas, sepultado, o fato é que o “novo” existe de verdade e que somos nós, os “jovens” de 30 e 40 anos, que não vemos “que a idade sempre vem”.

sábado, 26 de junho de 2010

Eu não sei nadar

Ser mulher nunca foi fácil. Em nenhum período ou lugar. Afinal, as mulheres têm, basicamente, duas alternativas na vida. A primeira e a mais tradicional delas é assumir a condição de dependente do marido. A outra possibilidade é suportar toda responsabilidade que decorre da independência feminina e da criação solitária dos filhos.
Foi assim com as minhas bisavós, a minha avó materna e a minha mãe. Umas mais bem sucedidas do que as outras, mas todas, sem exceção, tendo de assumir funções na vida que, a princípio, não lhes competiam.
A viuvez prematura da minha bisavó Stela, por exemplo, levou uma moça bem nascida e bem casada a transformar o confortável casarão onde vivia numa pensão na qual ela trabalhou por longos e duros anos, até conseguir casar a única filha mulher e concluir a formação impecável que ofereceu aos cinco filhos homens.
Do outro lado da família, a minha bisavó Ana chegou a apontar uma arma contra um quitandeiro para garantir os mantimentos necessários para alimentar a minha avó e as minhas tias-avós, enquanto o ordenado do meu bisavô não chegava a Manaus, numa época em que não existiam bancos capazes de transferir recursos com a facilidade a que estamos acostumados e que o transporte para aquela região era ainda mais precário do que o de hoje em dia.
Depois disso, já de volta ao Rio de Janeiro, a bisa Ana ainda teve de encarar a viuvez precoce e a obrigação de sustentar as três filhas pequenas, tocando piano em salas de cinema e costurando para fora. Mesmo assim, o dinheiro que ela ganhava não dava para pagar os aluguéis dos imóveis locados na região central da cidade. O jeito, então, foi arranjar uma mobília dobrável e contratar um burro-sem-rabo para fazer a mudança a cada três meses de aluguel atrasado.
Contudo, nem mesmo o sucesso das empreitadas dessas duas mulheres fantásticas, que, no final de suas vidas, conseguiram casar bem as filhas moças e fornecer uma educação excepcional para os rapazes, foi suficiente para evitar que a as futuras gerações de mulheres da família passassem por revezes e que tivessem de enfrentar o mesmo sofrimento e as mesmas dificuldades por que elas haviam passado.
Minha avó materna, seguindo a sina familiar, também enviuvou cedo, vindo a adoecer logo após a sua aposentadoria e a minha mãe, bom a minha mãe se separou duas vezes e, assim como a sua avó Ana, passou por poucas e boas para terminar de formar as três filhas.
Vocês podem admirar - do mesmo modo como eu admiro - a história de vida dessas mulheres, mas, como legítima sucessora da linhagem de mulheres duronas da minha família, posso afirmar que não é nada fácil ser como elas foram. Sim, pois, ao contrário do que narram românticas biografias, talvez não exista nada mais difícil na vida de uma mulher do que abrir mão do direito de ser apenas mulher.
Volta e meia, dá uma vontade louca de dar um chilique, de fazer uma chantagem emocional, de pedir atenção e carinho, de ser mimada, cuidada, e - o que é ainda melhor - ser compreendida, amada e admirada com um ser feminino, dotado de grande sensibilidade.
Tanto é assim que, às vezes, me pego pensando em que momento exato da minha vida abri mão do direito de ser vista, amada e admirada como mulher. Terá sido na infância, quando assumi a administração da casa e os cuidados da minha avó doente? Ou terá sido por que tive que conviver e, desde cedo, dividir o espaço e a atenção com uma irmã ultra dengosa que acabei endurecendo? Afinal, alguém tinha de manter o equilíbrio emocional e a objetividade em meio às crises familiares que enfrentamos juntas.
Pode ter sido a infância sim, mas a adolescência também não ajudou muito a desenvolver o meu lado feminino. O afastamento abrupto do meu pai - com a consequente perda do suporte masculino -, somado à maternidade ainda na condição de solteira - que me fez ir à luta sozinha - e à primeira decepção amorosa, aos quinze anos de idade, quando prometi a mim mesma que nunca mais choraria por amor, não favoreceram muito o florescimento da Afrodite até então reprimida.
O fato é que todas essas situações, isoladamente ou somadas umas às outras, me levaram a construir uma espécie de barreira de contenção do mar revolto que habita o interior de toda mulher e que - muito embora seja doloroso passar a vida sem se deixar levar pelas marés da feminilidade -, no fundo, eu sofro mesmo é de um grande temor de ver essa barreira, meticulosamente projetada, ir a baixo. Afinal, eu não sei nadar nessas águas turbulentas e não tenho certeza se conseguiria aprender a tempo de me livrar de um eventual afogamento.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Entropias do amor

Imagino que muitas pessoas tenham assistido “Whatever works” - último filme do Woody Allen lançado no Brasil - e se divertido com a forma como a mosca morta da Melody incorporou as filosofias de vida do genial looser Boris. Eu fui uma dessas pessoas e adorei, especialmente, aquela cena em que a parva vivida pela engraçada Evan Rachel Wood invoca a Teoria da Entropia para explicar ao rapaz que a assediava que a relação entre os dois - como também a dela com o marido - não seria mais a mesma depois deles terem se beijado, pois, assim como a pasta de dente não volta mais para dentro do tubo depois de expelida, o casamento dela com o Boris deixaria de ser como antes, depois dela ter beijado outro homem.
Por mais esdrúxula e cômica que tenha sido a cena, ela tinha razão. As relações humanas se sujeitam ao primado da entropia do mesmo jeito que a pasta de dente, ou seja, tendem a se desorganizar tanto quanto os eventos físicos, muitas vezes, inclusive, de forma irreversível. Assim, quando beijamos um (a) desconhecido (a) ou um (a) amigo (a) de longa data, a relação com essa pessoa avança a um nível difícil de reverter. Sendo certo que, nesses casos, a pasta de dente pode até ser bem aproveitada e render ótimos resultados, mas também pode significar um tremendo desperdício de creme dental.
Essa regra cai como uma luva para explicar um fenômeno que ocorre com aqueles que lidam bem com a solidão, mas que, vez por outra, se veem instados a abandonar suas estimadas zonas de conforto em busca do amor. Vale dizer que ali, naquela condição solitária, essas pessoas se viram bem, focam as suas atenções em outros departamentos da vida e conseguem, com bastante sucesso, extrair felicidade de fontes alheias ao amor.
O surgimento de um amor na vida dessas pessoas, portanto, tende a funcionar como um fator de entropismo, que, claro, pode consistir num enorme ganho em termos de felicidade externa, mas também representar a perda da paz e da alegria interior carinhosamente cultivadas no período de solidão. O jeito, nessas situações, é comprar um novo tubo de pasta de dente, pois aquele cujo conteúdo foi utilizado na tentativa de encontrar o amor não tornará a se encher de novo. É sim fundamental reconstruir toda a paz novamente, tijolo por tijolo, mesmo imaginando que, mais adiante, alguém poderá demoli-la outra vez.
Bom, a essa altura, alguém pode estar se perguntando: “mas e as relações entropisadas?” Eu respondo dizendo que ou elas - funcionando como as pastas de dente - fazem bastante espuma na boca dos amantes, deixando muitos sorrisos bonitos por aí, ou seguem o destino de um outro exemplo clássico de entropia: o do vidro quebrado, que, uma vez esfacelado, vira uma montoeira de cacos espalhados pelo chão, que ainda pode ter salvação, caso as pessoas envolvidas no acidente reúnam os estilhaços e os aqueçam até o ponto de fusão. De qualquer forma, mesmo com todo esse esforço, o máximo que eles conseguirão obter com essa nova empreitada será um objeto inteiramente novo, que, ainda que tenha forma semelhante à do objeto destroçado, não mais guardará a sua essência original. É a entropia!

sexta-feira, 12 de março de 2010

As flanelas do amor

Não sei se alguém já reparou, mas as mulheres vivem um processo bem semelhante ao dos carros em busca de uma vaga para estacionar. Sabe aqueles sábados de sol rachando em que todo mundo decide ir à praia? Você pega o carro e inicia a tortuosa peregrinação de encontrar uma vaga. Sim é um exercício de paciência, de esperteza e de sorte também. O mesmo exercício, ou melhor, a mesma via crucis, que as mulheres precisam encarar quando decidem estacionar a vida afetiva delas. Qual é a realidade? São poucas vagas disponíveis e muitos carros sedentos por um espaçinho à beira das calçadas. Destas vagas, muitas, para não dizer a maioria, apresentam sérios inconvenientes. O local pode ser arriscado, proibido ou inseguro. O sol pode bater forte sobre o vidro do carro. Mesmo assim - pasmem - essas vagas serão preenchidas. Basta a motorista ser um pouco mais consensiosa e, pronto, se satisfaz em poder estacionar o carro ali mesmo. “Melhor do que ficar na pista”, elas pensam. A grande questão é que, enquanto você não estaciona, a tendência é a quilometragem ir aumentando. Isso porque, a menos que a pilota desista e volte para casa, ela ficará rodando em círculos, dando voltas pelas ruas, passando várias vezes pelos mesmos pontos e revivendo experiência nem sempre agradáveis. Aquela situação de chegar meio segundo depois da vaga ter surgido e de já ter alguém na sua frente ou, então, de ser atropelado por outra motorista, que joga o carro dentro da vaga no instante em que você se distraiu. Outra estratégia para aquelas que querem estacionar a todo custo é a de bater ponto na frente de uma vaga até ela liberar. Trata-se de uma tática bem agressiva, concordo, mas que - vamos combinar - é bastante comum e, pelo menos, na praia, para aquelas pessoas determinadas, costuma funcionar.
É possível escapar dessa armadilha? Não. Você até pode ir à praia de taxi, a pé ou de bike, mas, certamente, não tem como deixar de pilotar o seu coração. Bom e aí, amiga, no dia em que o motor começar a esquentar e o combustível a acabar, você vai querer dar um tempo encostada em algum paradeiro, de preferência tranquilo e seguro, e aí, nessa hora, é torcer para a sorte te agraciar com uma vaguinha na sombra ou se conformar em se ajeitar, da melhor maneira possível, naquela fatia que lhe cabe no asfalto.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

1989

Na Política:
Caía o Muro de Berlim, última e definitiva etapa do processo de reabertura econômica do Leste Europeu, iniciado a partir de 1985 com a Perestroika de Gorbatchev. Era o fim da Guerra Fria. Ufa!
No Brasil, eram realizadas as primeiras eleições presidenciais após 25 anos do Golpe Militar. Brizola, Lula e Ulysses Guimarães, figuras marcantes na campanha das “Diretas Já”, com importantes atuações em todo o processo redemocratização, eram apontados como fortes candidatos ao cargo, mas terminaram - como todo mundo sabe - perdendo o histórico pleito para o, até então, desconhecido Fenando Collor de Mello.
1989 também entrou para a história como o ano dos protestos na Praça da Paz Celestial. As imagens do massacre em 4 de junho foram eternizadas como registros da tirania estatal. A China - pasmem -, mesmo 20 anos após os protestos, continua comunista e, apesar da reestruturação econômica que vem sofrendo, permanece sendo um país com pouco ou nenhum espaço concedido à liberdade de expressão.

No futebol:
O Botafogo conquistava o título de Campeão Carioca, quebrando um jejum de 21 anos sem vitórias. O modesto time comandado por Valdir Espinosa, cujo maior nome atendia pela alcunha de Paulinho Criciúma, entrou para a história ao vencer uma favoritíssima equipe rubro-negra - composta por Zico, Bebeto, Leonardo entre outros nomes de peso - e, com o resultado, atingido com marcado gol por Maurício aos 12` do 2º tempo, alcançar o feito de ser campeão carioca invicto.
1989 também foi o ano da consagração de uma dupla que ainda daria muitas alegrias ao futebol brasileiro. Juntos, naquele ano, sob a batuta do técnico Sebastião Lazaroni (?), então comandante da seleção brasileira, Romário e Bebeto quebravam um jejum de 40 anos sem títulos na competição latino-americana, conquistando, em pleno Maracanã, - na última edição da competição no país - o nosso quarto título da Copa América. Era o reencontro da seleção canarinho com a sua história de vitórias. De lá pra cá, conquistamos duas Copas do Mundo, três Copas das Confederações e mais quatro títulos da Copa América, sendo os dois últimos em cima da nossa arqui-rival Argentina. Detalhe: a próxima edição será realizada em solo portenho. Imagina só: é a oportunidade perfeita para entubar o tri vice nos hermanos. Na casa dos caras! Visitinha indigesta, hein?
Em tempo: o título do BR-89 foi cruzmaltino, mas o artilheiro da competição, com 11 gols, foi Túlio, então jogador do Goiás, que, anos mais tarde, no BR-95, já como Maravilha, atingiria a meta 23 vezes.

No Cockpit:
Alain Prost se sagraria campeão da temporada. Sim, isso mesmo. O vilão francês conseguiu. Após atacar de Dick Vigarista total e tirar - no tapetão - aquilo que, na pista, embora tenha tentado, não foi competente o suficiente para evitar, a saber: a brilhantes vitória de Ayrton Senna em Suzuka. Todavia, naquele inesquecível 22 de outubro de 1989, os fãs do automobilismo espalhados pelos quatro cantos do mundo souberam quem havia vencido e GP do Japão e já reconheciam naquele incansável e destemido piloto brasieliro o maior corredor de todos os tempos.

Nos palcos:
1989 foi uma ano de muitas perdas. Era o ano do adeus a Luiz Gonzaga, o nosso Rei do Baião, e ao imortal Maluco Beleza. Raul Seixas nos deixava na manhã do dia 21 de agosto. Morria não. Como ele costumava dizer: "Ninguém morre, as pessoas despertam do sonho da vida.". Naquela manhã de segunda-feira, então, quando seu corpo foi encontrado, Raulzito teria, enfim, despertado de um sonho, um sonho que, ao sonhar junto com tanta gente, acabou se tornando realidade.
Também era o ano do adeus de Cazuza aos palcos. Seu último show, realizado no dia 24 de janeiro de 1989, não fluiu nada bem. Em alguns momentos, Cazuza chegou a insultar a plateia. Depois justificou a sua atitude, dizendo que se sentia incomodado com o olhar de pena das pessoas. Que jeito! Ele era pele e osso. A apresentação precisava ser interrompida seguidas vezes para que ele pudesse respirar com a ajuda de balões de oxigênio. Mas o Exagerado ainda encontraria fôlego para gravar o último dos cinco álbuns da sua meteórica carreira solo. Em LP duplo, o álbum "Burguesia" chegava às lojas naquele ano, trazendo sucessos como a faixa título. Destaque também para a linda “Mulher sem razão”, mais uma das belas composições da parceria formada com Bebel Gilberto e Dé Palmeira, sucesso na voz de Adriana Calcanhoto, tal como “Mais Feliz”. “Preciso dizer que te amo”, eternizada na versão de Marina Lima, fecha a trilogia.
Compensando as imensas baixas sofridas, o público brasileiro era agraciado com o surgimento de uma nova diva da MPB. Marisa Monte, dona de talento e bom gosto indiscutíveis, já chegou mostrando a que vinha. Simples assim.
Pra finalizar, o álbum "Quatro Estações" do Legião Urbana era lançado em grande estilo. O trabalho, que marcava uma mudança no perfil musical da banda, com letras que consagrariam o talento poético de Renato Russo, fez enorme sucesso e teve faixas como "Pais e Filhos" executadas à exaustão pelas rádios cariocas.

Nas pistas:
“Gostava de música americana, ia pro baile dançar todo fim de semana”. A introdução da música “Manuel”, sucesso do álbum “Ed Motta & Conexão Japeri”, nos dá a perfeita noção do cenário musical de 1989. Era o ano do tuntitum. Isso mesmo. Época do SynthPop de New Order (?), Depeche Mode, Human Leage, Eurythmics, Erasure e Pet Shop Boys. Enfim, em 1989, enquanto toda aquela irresistível batida britânica já fazia ferver as pistas de danças do mundo todo, o estilo musical sintetizado começava a pulsar mais intensamente na terra do tio Sam. Saiam das gravadoras estadunidenses singles como “Pure Energy” do Information Society, "Give me your love" do The Voice in Fashion [sic], “Easy” de Ice Mc. Ao lado desses, os belgas do Technotronic emplacavam “Move This” e “Pump Up the Jam” e os canadendes do Kon Kan [sic] estouravam com “I Beg you Pardon” e “Harry Whodini” (escrita assim mesmo, embora se tratasse de uma música escrita em homenagem ao meste do ilusionimo, Harry Houdini). Por fim, não podemos deixar de falar de Noel Pagan, autor de um dos maiores clássicos da época, a indescritível “Silent Morning”, identificado, por muitos, talvez pelo single “Like a Child”, talvez por sua nacionalidade norte-americana, como afiliado ao movimento FreeStyle, ao lado de figuras de Stevie B. e Tony Garcia. Uma injustiça a meu ver. “Silent Morning” funde claramente elementos do SynthPop e do FreeStyle, estando longe de ser uma autêntica funk melody, tais como os hits “In my eyes” e “Just like the Wind”. Seja como for, Noel foi copiado em quase (faltou o talento) tudo pelo maior representante do gênero no Brasil. Sim, ele mesmo: Latino e seu greatest hit “Me leva”. Fazer o quê?

Nas telonas:
1989 foi marcado pelo enorme sucesso de “Sociedade dos Poetas Mortos”, mas entrou para história mesmo como sendo o ano do nascimento de um dos mais rentáveis gêneros cinematográficos da história: a comédia romântica. Escaleça-se: em 1989, “Harry e Sally”, comédia estrelada por Billy Cristal e Meg Ryan (imbatível no gênero), considerada, por muitos, como a primeira comédia romântica, ou, pelo menos, a primeira tentativa financeiramente bem-sucedida dos estúdios de Hollywood de falar de amor de um jeito divertido, chegou às salas de cinema do mundo todo, mudando definitivamente o perfil dos filmes românticos produzidos pela meca californiana. Justiça seja feita: Woody Allen sempre produziu esse tipo de comédia e, aliás, em 1989, dirigiu um dos “Contos de Nova York” que é de passar mal de rir. “Édipo Arrasado” foi, sem dúvida, o melhor dos três contos daquela obra coletiva. Scorsese nem tanto, mas Coppola ficou devendo feio nessa.

(?) 1 - Sebastião Lazaroni? Quem é esse cidadão?, devem estar se perguntando os mais jovens. Pois é, esse ilustre desconhecido fez parte da história da seleção brasileira de futebol. Believe or not.
- Por onde anda esse cidadão?, devem se perguntar os mais velhos. Bom, o que posso dizer é que, longe dos holofotes da imprensa esportiva brasileira, o técnico - com a passagem mais apagada das últimas décadas, quiçá da história da seleção brasileira - vem comandando equipes inexpressivas do futebol internacional e até conquistando um ou outro título mundo afora. Nada mal para quem ganha em euro.
(?) 2 Há muita controvérsia acerca da inclusão do New Order no movimento denominado SynthPop. É que a banda formada por integrantes remanescentes do Joy Division, após a morte do seu líder, o vocalista Ian Curtis, tem fãs muito ardorosos e que defendem que o New Order não pode ser visto como uma banda de som eletrônico qualquer, tendo em vista a qualidade de seus músicos e a sua origem roqueira. Acontece que há um certo exagero por detrás desse argumento, pois tanto o Depeche Mode como as outras bandas que citei como integrantes desse movimento têm como característica, justamente, a qualidade musical. A história de músicos por formação (na maioria das vezes, egressos de experiências musicais ligadas ao Rock) que começaram a brincar com o sintetizador e terminaram criando um som tão inovador é recorrente e explica porque a música eletrônica produzida nessa época - diferentemente da que veio em seguida - era tão boa.
[sic], que, em latim, significa "Sic et simpliciter" e, em bom Português, quer dizer "assim e simplesmente", serve pra enfatizar que aquilo que se lê é exatamente aquilo "pura e simplesmente". Pois é. Certas bandas de 1989, você pode não acreditar, mas atendiam por nomes como Kon Kan e The Voice in Fashion. O leitor pode até duvidar, mas aposto como conhece os hits dessas bandas de nomes esdrúxulos. Simplesmente isso.

domingo, 22 de novembro de 2009

FRASE DA SEMANA

Circulou nos corredores do Fórum, essa semana, folheto - impresso em papel timbrado do Tribunal de Justiça - contendo os seguintes dizeres:




Se é pra esculachar: META 2 no _ do Gilmar.



Esclarecendo: META 2 é uma iniciativa do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), órgão presidido por Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, voltada a agilizar o andamento das ações ajuizadas até o ano de 2005, mas, é claro, que a intenção do trocadilho foi a de que o leitor substituísse o som agudo da letra “e” na palavra “meta” pelo som grave do verbo “meter”, conjugado na segunda pessoa do singular do modo imperativo. Entendeu, entendeu?!



Ah, o autor do panfleto, serventuário lotado na 9ª Vara Cível, tido - não se sabe bem o motivo - como maluco pelos seus pares, foi punido com a pena de suspensão. Uma baita injustiça!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A dolorosa chegou

Meses atrás escrevi o texto abaixo e, como o caso Battisti deve ter um desfecho amanhã, decidi reeditá-lo, com algumas modificações, para aqueles que tivessem curiosidade de entender o que nos trouxe a essa situação ou que, assim como eu, conseguissem enxergar o ridículo por detrás de toda pendenga política, pudessem lê-lo antes do julgamento e, quem sabe, até se divertir com a história. Antes que fosse tarde. Afinal, amanhã o Brasil pode se tornar um país sério. Ui!!! Ouço essa ameaça desde criança, mas juro que agora sinto medo. De verdade.




Cesare Battisti é uma espécie de Ronald Biggs dos novos tempos. Suposto criminoso e dublê de ativista político cultuado pela intelectualidade parisiense, viveu na Cidade Luz por um longo e quase sabático período, publicando livros, degustando vinhos, até que um sujeitinho estraga-prazeres, um certo Nicolas Sarkozy - na ocasião ministro do Interior do governo de Jacques Chirac e candidato à presidência representando a direita alinhada a Silvio Berlusconi - decidiu cassar o status de refugiado político do badalado estrangeiro. Porém, em vez de entregar a César o que é de César, Sarkozy, talvez na esperança de que outros caminhos o levassem à Roma, não extraditou o sujeito, deixando-o sair à francesa, para escolher o melhor destino possível. Fazer o quê?! Mas o que chama mais a atenção nessa história é o fato de que, ao contrário do que a decadente impressa brasileira insiste em noticiar, o Brasil não é o único país do planeta envolvido com concessões de asilo político e proteções veladas a esquerdistas desvairados. Para os desavisados, porém, por mais bizarro que isso seja, essas reportagens soam como verdades irrefutáveis. Aquele papo tipo: “eu li na Veja”. Aff!!! Incrível como existe esse tipo de pessoa! Não é o caso de ninguém que me lê, espero. Sabemos ou, pelo menos, deveríamos ser informados da existência de muitos outros perseguidos políticos que, a exemplo de Marina Petrella, permanecem ao abrigo da "laissez-faire, laissez-passer".

Como se vê, estamos diante de um problema que não é absolutamente nosso e que, por esse motivo, o mais acertado, nesse momento, era o governo brasileiro colocar o cara num vôo direto para o Charles de Gaulle ou, quem sabe, até mesmo, a bordo do disputado jatinho de Eike Batista, para um aguardado reencontro com a sua protetora Carla Bruni. Isso mesmo. Embora negue, a primeira-dama francesa é tida como uma importante defensora de Battisti e não vai ser o maridão apaixonado (aquele mesmo que provocou o imbróglio) que iria estragar a alegria da moça.

De qualquer sorte, o certo é que esse caso já superou as instâncias política e jurídica, atingido - como, aliás, mandam as tradições francesa e italiana - o apogeu sexual.

Em suma: enquanto o tarado francês não sabe se agrada a mulher, com quem divide a cama, ou o político italiano, com quem compartilha ideias e ideais - César ou Cleópatra - o Brasil segue pagando a conta do motel.