sexta-feira, 18 de junho de 2010

Entropias do amor

Imagino que muitas pessoas tenham assistido “Whatever works” - último filme do Woody Allen lançado no Brasil - e se divertido com a forma como a mosca morta da Melody incorporou as filosofias de vida do genial looser Boris. Eu fui uma dessas pessoas e adorei, especialmente, aquela cena em que a parva vivida pela engraçada Evan Rachel Wood invoca a Teoria da Entropia para explicar ao rapaz que a assediava que a relação entre os dois - como também a dela com o marido - não seria mais a mesma depois deles terem se beijado, pois, assim como a pasta de dente não volta mais para dentro do tubo depois de expelida, o casamento dela com o Boris deixaria de ser como antes, depois dela ter beijado outro homem.
Por mais esdrúxula e cômica que tenha sido a cena, ela tinha razão. As relações humanas se sujeitam ao primado da entropia do mesmo jeito que a pasta de dente, ou seja, tendem a se desorganizar tanto quanto os eventos físicos, muitas vezes, inclusive, de forma irreversível. Assim, quando beijamos um (a) desconhecido (a) ou um (a) amigo (a) de longa data, a relação com essa pessoa avança a um nível difícil de reverter. Sendo certo que, nesses casos, a pasta de dente pode até ser bem aproveitada e render ótimos resultados, mas também pode significar um tremendo desperdício de creme dental.
Essa regra cai como uma luva para explicar um fenômeno que ocorre com aqueles que lidam bem com a solidão, mas que, vez por outra, se veem instados a abandonar suas estimadas zonas de conforto em busca do amor. Vale dizer que ali, naquela condição solitária, essas pessoas se viram bem, focam as suas atenções em outros departamentos da vida e conseguem, com bastante sucesso, extrair felicidade de fontes alheias ao amor.
O surgimento de um amor na vida dessas pessoas, portanto, tende a funcionar como um fator de entropismo, que, claro, pode consistir num enorme ganho em termos de felicidade externa, mas também representar a perda da paz e da alegria interior carinhosamente cultivadas no período de solidão. O jeito, nessas situações, é comprar um novo tubo de pasta de dente, pois aquele cujo conteúdo foi utilizado na tentativa de encontrar o amor não tornará a se encher de novo. É sim fundamental reconstruir toda a paz novamente, tijolo por tijolo, mesmo imaginando que, mais adiante, alguém poderá demoli-la outra vez.
Bom, a essa altura, alguém pode estar se perguntando: “mas e as relações entropisadas?” Eu respondo dizendo que ou elas - funcionando como as pastas de dente - fazem bastante espuma na boca dos amantes, deixando muitos sorrisos bonitos por aí, ou seguem o destino de um outro exemplo clássico de entropia: o do vidro quebrado, que, uma vez esfacelado, vira uma montoeira de cacos espalhados pelo chão, que ainda pode ter salvação, caso as pessoas envolvidas no acidente reúnam os estilhaços e os aqueçam até o ponto de fusão. De qualquer forma, mesmo com todo esse esforço, o máximo que eles conseguirão obter com essa nova empreitada será um objeto inteiramente novo, que, ainda que tenha forma semelhante à do objeto destroçado, não mais guardará a sua essência original. É a entropia!

Um comentário:

  1. Nossa, texto de uma excelente advogada tirando onda de farmacêutica com pitadas de psicologia. Não me espanta que tenha sido redigido por uma pessoa extremamente sensível e inteligente... PARABÉNS!!!! Bjs Lu

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