terça-feira, 23 de abril de 2013

Homem não é bagunça

Sempre gostei muito de conversar com a minha mãe e de ouvir as histórias sobre a família ou sobre algum conhecido nosso ou dela que ela me contava. Uma dessas histórias, no entanto, apesar de muito engraçada, é também bastante emblemática da diferença existente entre os limites da intimidade física dos homens e das mulheres em nossa sociedade. Vamos aos fatos: minha mãe cursou arquitetura na UFRJ entre o final dos anos 60 e o início dos anos 70 e, como você já deve estar imaginando, formou um grupo de amigos festeiros a vida toda. Ela me conta que, certa vez, alguns casais desse grupo decidiram ir a uma quadra de escola de samba, uma dessas mais barra-pesadas, e que, como sabiam que o ambiente era hostil e perigoso, os caras combinaram entre si que não arranjariam briga se algum malandro da comunidade passasse a mão de bunda de suas mulheres. No dia seguinte, quando souberam que eles tinham se envolvido numa briga, os outros amigos logo quiseram saber se e por que eles haviam descumprido a combinação inicial. Eles responderam que tinham feito exatamente o combinado, que os homens da tal quadra de samba assediaram todas as mulheres do grupo impunemente, mas que a briga se tornou inevitável quando um malandro da comunidade passou a mão na bunda de um dos caras do grupo. Enfim, como se pode ver, mesmo vivendo nos anos 70, período de emancipação feminina e de forte questionamento acerca dos valores familiares tradicionais, os estudantes de arquitetura não fizeram nada além de reproduzir uma das mais deprimentes posturas da nossa sociedade machista, que atribui maior valor à intimidade física e à sexualidade masculina do que à intimidade física e à sexualidade feminina. E o mais lamentável de tudo é saber que essa desigualdade se perpetua como padrão e chega aos dias de hoje sem ser questionada. Até hoje a intimidade física de uma mulher depende mais de um suposto respeito a que ela deveria se dar do que de uma consciência social de que o corpo de uma pessoa consiste num bem individual e incondicionalmente inviolável. A incontinência feminina é a culpa de tudo. Já a incontinência masculina é natural. Até porque não se considera incontinência o ato de invadir a intimidade de uma mulher que não blinde devidamente o seu corpo com uma postura adequada. Imagina, não havia placa nenhuma sinalizando que o corpo daquela moça era uma propriedade particular. Por que não penetrar? Até hoje a sexualidade feminina é exposta com menos respeito no espaço público do que a masculina. Até hoje, as revistas de maior circulação no país e as grandes livrarias promovem um livro que estimula a prática da violência contra mulheres como solução para apimentar a relação sexual dos casais. Sempre que vejo esse livro, sinto vontade de escrever um romance que estimule as mulheres a fazer fio-terra nos maridos como forma de reaquecer a sua vida sexual. Mas tenho certeza de que nenhuma editora o publicaria, muito menos com intenção de transformá-lo em “best seller”, com grande promoção nos principais veículos de mídia e nas maiores livrarias. Um livro com essa proposta poderia ajudar muitos casais a melhorar o desempenho e a elevar o grau de satisfação advindo do sexo (afinal, assim como a sexualidade feminina, a sexualidade masculina também tem seus traços obscuros), mas jamais estamparia a capa de uma grande revista, pois, tal como o título dessa crônica antecipou, ao contrário de nós, mulheres, homem não é bagunça.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sorria, você está sendo estuprada

A regra é não reagir. Essa é a recomendação padrão dos especialistas em segurança pública para os casos de violência urbana, mas poderia perfeitamente ser o conselho que aquela tia sabida transmite à sobrinha que começa a ser alvo do assédio masculino. Diria a nossa especialista em segurança feminina que a mulher que quiser sobreviver sem grandes arranhões ou feridas numa sociedade machista como a nossa deve ter o cuidado de transmitir aos homens com quem interaja a segurança de que são eles que estão no comando. Mulher com amor à vida e a sua honra não oferece ameaça ao sistema vigente. Afinal, a “ameaça feminina” é a senha e a justificativa para a ativação da violência masculina latente, legitimada pela desigualdade sexual que, como sabemos, confere ao homem a ascensão, o poder e o domínio sobre as mulheres. A tia sabida não ousa questionar a legitimidade da violência masculina, ela apenas transmite à jovem sobrinha o código de normas machista e a adverte sobre os riscos de usar roupa curta ou decotada, beber demais, estudar em excesso e transar antes do casamento. A preocupação da tia sabida é a de evitar que a sobrinha seja condenada às penas de má reputação, solidão, solteirice e, em casos extremos, de abuso sexual, destinadas a punir, de maneira exemplar, as mulheres que violam o código machista, tornando-se ameaças à ordem social vigente. Mulheres, a culpa é nossa. Somos infratoras, sujeitas às penas acima, todas nós que ousamos pensar diferente, contestar a autoridade masculina, competir com eles, prescindir deles, conquistar a independência financeira, exibir a nossa sensualidade e não reprimir a nossa sexualidade. Quem manda deixar os homens inseguros? Mulheres que se prezam não oferecem ameaça à classe masculina, não dão razão para os homens acharem que podem acionar a violência que detêm legitimamente contra elas. Por isso, nada de vestidos curtos ou decotados, nada de ser muito bonita, de ser muito fácil, nem muito difícil, nada de ficar solteira nem de sair sozinha (ou "com as amigas"). Melhor desistir também de ser muito inteligente e de ter opinião. O quê? Opinião? Pirou, sobrinha? Esquece isso. Quer morrer na fogueira? A tia sabida entende das coisas. E, como instrução final para a sobrinha, lembra a jovem de sorrir sempre, em qualquer circunstância. Mesmo que nenhuma de suas recomendações de segurança seja suficiente para evitar a violência. Afinal, você não vai querer piorar ainda mais as coisas?