For Non Blinds
Em terra de cego quem tem olho é doido.
domingo, 15 de junho de 2014
Educação pra quê?
Num ano em que tanto se criticou a qualidade da educação no Brasil, em que tanto se questionou para quem a Copa do Mundo estava sendo preparada e a quem ela iria favorecer, opto por abrir uma discussão um tanto mais filosófica: Educação pra quê?
Afinal, pra que serve a educação, esse suposto remédio contra todas as mazelas?
Educação serve para desenvolver o país, serve para viabilizar o crescimento econômico, serve para alavancar o desenvolvimento científico e tecnológico, serve para elevar o padrão de vida das pessoas e dos povos que mais se instruem? Pode ser.
O conhecimento é uma arma poderosa e disso ninguém duvida. Mas a noção de educação se encerra aí? Domínio linguístico e vasto traquejo cultural são indicativos suficientes do grau de educação de uma pessoa?
Enfim, essa não é uma questão filosófica nova e não tem encontrado respostas uníssonas. Concepções diferentes acerca do conceito de educação inclusive originaram Ordens distintas dentro da Igreja Católica. Ordens distintas, que, nesse momento, se fundem na pessoa do jesuíta Mario Jorge Bergoglio, atual Papa Francisco, fato que comprova que, embora aparentemente antagônicas, as concepções de São Francisco de Assis e de Santo Inácio de Loyola sobre a formação humana e social não chegam a ser inconciliáveis.
É possível sim unir conhecimento técnico e desenvolvimento espiritual e humano, aliás este deveria ser o ideal estabelecido por qualquer sociedade. Porém é também possível e necessário que se valorize cada um destes atributos pessoais isoladamente. Não existe hierarquia de valor entre uma pessoa bem instruída e outra dotada de requinte espiritual. Ambas têm valor e merecem respeito.
O conhecimento não vem de graça, muito pelo contrário, ele costuma ser fruto de muito esforço e dedicação, mas não faz de uma pessoa um ser humano melhor se este conhecimento for adquirido à custa de perdas espirituais e humanitárias.
O conhecimento sozinho realiza muitas coisas, boas ou más, mas não é capaz de produzir uma sociedade melhor, se - ao educar-se, instruir-se e informar-se mais - seus cidadãos forem abrindo mão do respeito pelo próximo, dos bons modos, da elegância, da paciência, da tolerância e das mais rudimentares noções de humanidade.
Assim, se é certo que uma sociedade que não premie e não valorize adequadamente a educação formal, que seja composta por indivíduos ignorantes e intelectualmente preguiçosos, terá enormes dificuldades em se desenvolver econômica, científica e tecnologicamente, é certo também que uma sociedade onde os valores humanos e espirituais estejam sendo colocados de lado não logrará progresso social e democrático.
Em resumo: para que o conhecimento não nos “troglotize” de vez ou para que a desvalorização do profissional qualificado não termine resultando em um retrocesso sociocultural inadmissível, faz-se necessário que lutemos por melhores condições de vida e por uma educação de qualidade que - por constituir-se como meio civilizatório e de desenvolvimento humano - se inicia justamente onde terminam as ofensas físicas e morais a bens, valores e pessoas, ricas ou pobres, autoridades públicas ou não.
Em outras palavras, valho-me da consagrada frase de certo revolucionário argentino como o jesuíta Francisco: “Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”.
terça-feira, 23 de abril de 2013
Homem não é bagunça
Sempre gostei muito de conversar com a minha mãe e de ouvir as histórias sobre a família ou sobre algum conhecido nosso ou dela que ela me contava.
Uma dessas histórias, no entanto, apesar de muito engraçada, é também bastante emblemática da diferença existente entre os limites da intimidade física dos homens e das mulheres em nossa sociedade.
Vamos aos fatos: minha mãe cursou arquitetura na UFRJ entre o final dos anos 60 e o início dos anos 70 e, como você já deve estar imaginando, formou um grupo de amigos festeiros a vida toda.
Ela me conta que, certa vez, alguns casais desse grupo decidiram ir a uma quadra de escola de samba, uma dessas mais barra-pesadas, e que, como sabiam que o ambiente era hostil e perigoso, os caras combinaram entre si que não arranjariam briga se algum malandro da comunidade passasse a mão de bunda de suas mulheres.
No dia seguinte, quando souberam que eles tinham se envolvido numa briga, os outros amigos logo quiseram saber se e por que eles haviam descumprido a combinação inicial.
Eles responderam que tinham feito exatamente o combinado, que os homens da tal quadra de samba assediaram todas as mulheres do grupo impunemente, mas que a briga se tornou inevitável quando um malandro da comunidade passou a mão na bunda de um dos caras do grupo.
Enfim, como se pode ver, mesmo vivendo nos anos 70, período de emancipação feminina e de forte questionamento acerca dos valores familiares tradicionais, os estudantes de arquitetura não fizeram nada além de reproduzir uma das mais deprimentes posturas da nossa sociedade machista, que atribui maior valor à intimidade física e à sexualidade masculina do que à intimidade física e à sexualidade feminina.
E o mais lamentável de tudo é saber que essa desigualdade se perpetua como padrão e chega aos dias de hoje sem ser questionada. Até hoje a intimidade física de uma mulher depende mais de um suposto respeito a que ela deveria se dar do que de uma consciência social de que o corpo de uma pessoa consiste num bem individual e incondicionalmente inviolável.
A incontinência feminina é a culpa de tudo. Já a incontinência masculina é natural. Até porque não se considera incontinência o ato de invadir a intimidade de uma mulher que não blinde devidamente o seu corpo com uma postura adequada. Imagina, não havia placa nenhuma sinalizando que o corpo daquela moça era uma propriedade particular. Por que não penetrar?
Até hoje a sexualidade feminina é exposta com menos respeito no espaço público do que a masculina. Até hoje, as revistas de maior circulação no país e as grandes livrarias promovem um livro que estimula a prática da violência contra mulheres como solução para apimentar a relação sexual dos casais.
Sempre que vejo esse livro, sinto vontade de escrever um romance que estimule as mulheres a fazer fio-terra nos maridos como forma de reaquecer a sua vida sexual. Mas tenho certeza de que nenhuma editora o publicaria, muito menos com intenção de transformá-lo em “best seller”, com grande promoção nos principais veículos de mídia e nas maiores livrarias.
Um livro com essa proposta poderia ajudar muitos casais a melhorar o desempenho e a elevar o grau de satisfação advindo do sexo (afinal, assim como a sexualidade feminina, a sexualidade masculina também tem seus traços obscuros), mas jamais estamparia a capa de uma grande revista, pois, tal como o título dessa crônica antecipou, ao contrário de nós, mulheres, homem não é bagunça.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Sorria, você está sendo estuprada
A regra é não reagir. Essa é a recomendação padrão dos especialistas em segurança pública para os casos de violência urbana, mas poderia perfeitamente ser o conselho que aquela tia sabida transmite à sobrinha que começa a ser alvo do assédio masculino.
Diria a nossa especialista em segurança feminina que a mulher que quiser sobreviver sem grandes arranhões ou feridas numa sociedade machista como a nossa deve ter o cuidado de transmitir aos homens com quem interaja a segurança de que são eles que estão no comando.
Mulher com amor à vida e a sua honra não oferece ameaça ao sistema vigente. Afinal, a “ameaça feminina” é a senha e a justificativa para a ativação da violência masculina latente, legitimada pela desigualdade sexual que, como sabemos, confere ao homem a ascensão, o poder e o domínio sobre as mulheres.
A tia sabida não ousa questionar a legitimidade da violência masculina, ela apenas transmite à jovem sobrinha o código de normas machista e a adverte sobre os riscos de usar roupa curta ou decotada, beber demais, estudar em excesso e transar antes do casamento.
A preocupação da tia sabida é a de evitar que a sobrinha seja condenada às penas de má reputação, solidão, solteirice e, em casos extremos, de abuso sexual, destinadas a punir, de maneira exemplar, as mulheres que violam o código machista, tornando-se ameaças à ordem social vigente.
Mulheres, a culpa é nossa. Somos infratoras, sujeitas às penas acima, todas nós que ousamos pensar diferente, contestar a autoridade masculina, competir com eles, prescindir deles, conquistar a independência financeira, exibir a nossa sensualidade e não reprimir a nossa sexualidade. Quem manda deixar os homens inseguros?
Mulheres que se prezam não oferecem ameaça à classe masculina, não dão razão para os homens acharem que podem acionar a violência que detêm legitimamente contra elas. Por isso, nada de vestidos curtos ou decotados, nada de ser muito bonita, de ser muito fácil, nem muito difícil, nada de ficar solteira nem de sair sozinha (ou "com as amigas"). Melhor desistir também de ser muito inteligente e de ter opinião. O quê? Opinião? Pirou, sobrinha? Esquece isso. Quer morrer na fogueira?
A tia sabida entende das coisas. E, como instrução final para a sobrinha, lembra a jovem de sorrir sempre, em qualquer circunstância. Mesmo que nenhuma de suas recomendações de segurança seja suficiente para evitar a violência. Afinal, você não vai querer piorar ainda mais as coisas?
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
O séquito dos asseclas lexicocidas
No Brasil, não existe racismo, não existe machismo, nem homofobia. Aliás, nunca existiu. Nenhum desses preconceitos. Isso é praga lá do estrangeiro. Nesse país hoje tão empenhado em reduzir as desigualdades sociais, em entender os gostos e as preferências da “nova classe média”, será que subsiste o preconceito linguístico? Será que o uso da língua segrega e estratifica a população?
Luciano Huck responderia que não. Afinal, seu programa de televisão promove concursos anuais de soletração nos quais alunos de escolas públicas de todas as regiões do país demonstram conhecimento incomum do vernáculo. Ali no auditório televisivo, adolescentes egressos das famílias menos favorecidas do país têm a rara oportunidade de dar vazão a toda pernosticidade contida no cotidiano e de serem admirados por isso.
E será que Caetano estava certo? A língua é minha pátria? Ou eu não tenho pátria? Será que, distante dos holofotes, os participantes de um concurso que premia um eruditismo tão fora de lugar encontrariam o mesmo espaço para empregar todo o seu domínio linguístico? Será que a pátria é para todos? Será que a língua é democrática ou será que o uso corrente de seus vocábulos mais peculiares seria privilégio de poucos?
Pigmaleão, personagem-título do romance de Bernard Shaw, não compreenderia a celeuma. A língua é um critério de estratificação social, não só pela pronúncia, mas também, é claro, pelo vocabulário empregado. Mas o eminente fonético, que assume o desafio de “adestrar” a desengonçada Eliza Doolitle*, vivia numa Inglaterra Vitoriana, sem espaço para a hipocrisia que impera em terras brasileiras.
No Reino Unido - lembremos - existe racismo, machismo, homofobia e preconceito linguístico. Lá, existem “poshes” e “chavs”. Ricos e pobres. Instruídos e ignorantes. Nobres e plebeus. Aqui, a existência de fenômeno similar é negada desde as mais profanas rodas de bar até os mais altos círculos acadêmicos.
Um estrangeiro que ouvisse isso seria capaz de concluir que o uso da Língua Portuguesa, então, seria um livre arbítrio e que as pessoas, no Brasil, poderiam sair impunemente empregando uma linguagem mais coloquial em ambientes seletos ou se utilizando de expressões pouco usuais quando bem entendessem, sem sofrer discriminações ou reprimendas por conta disso.
Mas, ao fazer uma experiência in loco, talvez ficasse desapontado ao descobrir que a língua falada pelos intelectuais destoa daquela que se ouve nos bares da cidade e em periferias, subúrbios, favelas e cantões deste país adentro. E há de se falar a língua do lugar. Afinal, falar difícil, dependendo de quem seja e em qual companhia esteja, pode ser um equívoco mortal, um desrespeito, uma ousadia. Falar feio “tá na moda”. Falar bonito é um privilégio de poucos.
A língua dos comuns dos mortais é o prêt-à-porter barato. A alta costura não cai bem em qualquer pessoa. Trajar-se do dialeto dos intelectuais e sair por aí desfilando expressões restritas às sumidades, sem ostentar posição para tanto, pode levar um desavisado a se deparar com o inóspito ambiente habitado pelo séquito dos asseclas lexicocidas, que, como animais acuados, rugem ante o menor sinal de concorrência e se unem num corporativismo atávico na luta pela preservação do controle sobre o pleno e exclusivíssimo emprego da parte mais nobre do nosso léxico.
* Personagem vivida por Audrey Hepburn, em “My Fair Lady”, adaptação cinematográfica do clássico da literatura britânica.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Mãe do amor
Carrego no ventre do meu coração todas as sementes dos amores abortados. Cada menstruação que desce é um amor que não vinga. E eu não quero menstruar mais. Nem tanto pelo volume de sangue perdido ou pelas dores que isso me traz, mas sim porque desejo dar a luz a um amor saudável. Um amor inteligente, do qual me orgulhe por ter concebido. Quero olhar para e dizer “fomos nós que fizemos” e fazer de tudo para que ele tenha vida longa e feliz. Quero um amor afável, sociável e que saiba se relacionar de forma harmoniosa com as pessoas. Sim, porque meu amor não vai ser um déspota, nem tentar provar que tem mais razão que os outros. Ele vai ser descomprometido, despreocupado com as opiniões alheias, amigo da minha família e dócil com os meus amigos. Meu amor não vai ser egoísta, nem me roubar de nada nem de ninguém que seja importante para mim. Ele só vai querer me ver feliz e me fazer ainda mais feliz em tê-lo.
domingo, 21 de novembro de 2010
Como os nossos filhos
Já faz tempo, ouvi uma bela canção que falava sobre a tristeza de perceber que, apesar de fazerem tudo o que faziam, os jovens terminavam sendo como os seus pais. Essa era a impressão que se tinha no ano de 1976, quando Belchior compôs “Como nossos pais”, música que traduzia a frustração de uma geração que se dedicou com afinco a combater a hipocrisia e o status quo vigente na época. Jovens de classe média, que acreditavam ter o poder de mudar o mundo, mas que terminaram sendo forçados a admitir que a realidade era um jogo com regras pré-estabelecidas.
“Você pode até dizer eu tô por fora ou então que eu tô inventando”, mas, de lá pra cá, muita coisa mudou e, ao contrário do que os jovens daquele tempo sentiam, a contracultura terminou colhendo os seus frutos. Assim, tomando emprestados os versos de um artista da década de 80, podemos dizer que o “futuro não é mais como era antigamente”. Os casamentos, os homens, as mulheres, as relações das pessoas com o mundo e, especialmente, entre pais e filhos, deu um giro de 180 graus, ao final de cinco décadas de intensos tremores nas estruturas da sociedade.
E, mais uma vez, “é só você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem” e que aquela linda canção, hoje, não passa de um registro extraordinário de um tempo que não volta mais e que foi superado e substituído por uma era na qual os conceitos estão em constante crise, levando as pessoas a consumi-los depressa, face o fundado receio de que os valores - tal como no período da hiperinflação - mudem da noite para o dia.
Hoje, quantos de nós não gostariam de ser “como os nossos pais” ou - o que seria ainda melhor - “como os nossos avós” (afinal, muitos de nossos pais terminaram não sendo como seus próprios pais)? No entanto, aquele velho caminho natural das coisas parece ter sido interditado, de maneira a transformar a “vida adulta” numa meta difícil de ser atingida. Se é que ela um dia chega!
O resultado prático disso é que, por uma ironia inacreditável, na medida em que nos distanciamos daquele modelo tradicional dos nossos pais e avós, acabamos nos parecendo, cada dia mais, com os nossos filhos e, não raro, temos os mesmos gostos, os mesmos hábitos e - o que é mais louco de tudo - os mesmo interesses que os jovens de hoje em dia.
Prova disso é já se tornou comum, nos dias atuais, ver pais e filhos compartilhando a mesma paixão por vídeo games, equipamentos eletrônicos (smartphones, notebooks, consoles, aparelhos de mp3), redes sociais e rock`n`roll. Enfim, não existem mais aqueles conceitos de “coisa de velho” e “coisa de jovem”. Contudo, muito embora esse fato oculte a diferença de idade entre pais e filhos e nos induza a crer que o “conflito de gerações” foi, de uma vez por todas, sepultado, o fato é que o “novo” existe de verdade e que somos nós, os “jovens” de 30 e 40 anos, que não vemos “que a idade sempre vem”.
“Você pode até dizer eu tô por fora ou então que eu tô inventando”, mas, de lá pra cá, muita coisa mudou e, ao contrário do que os jovens daquele tempo sentiam, a contracultura terminou colhendo os seus frutos. Assim, tomando emprestados os versos de um artista da década de 80, podemos dizer que o “futuro não é mais como era antigamente”. Os casamentos, os homens, as mulheres, as relações das pessoas com o mundo e, especialmente, entre pais e filhos, deu um giro de 180 graus, ao final de cinco décadas de intensos tremores nas estruturas da sociedade.
E, mais uma vez, “é só você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem” e que aquela linda canção, hoje, não passa de um registro extraordinário de um tempo que não volta mais e que foi superado e substituído por uma era na qual os conceitos estão em constante crise, levando as pessoas a consumi-los depressa, face o fundado receio de que os valores - tal como no período da hiperinflação - mudem da noite para o dia.
Hoje, quantos de nós não gostariam de ser “como os nossos pais” ou - o que seria ainda melhor - “como os nossos avós” (afinal, muitos de nossos pais terminaram não sendo como seus próprios pais)? No entanto, aquele velho caminho natural das coisas parece ter sido interditado, de maneira a transformar a “vida adulta” numa meta difícil de ser atingida. Se é que ela um dia chega!
O resultado prático disso é que, por uma ironia inacreditável, na medida em que nos distanciamos daquele modelo tradicional dos nossos pais e avós, acabamos nos parecendo, cada dia mais, com os nossos filhos e, não raro, temos os mesmos gostos, os mesmos hábitos e - o que é mais louco de tudo - os mesmo interesses que os jovens de hoje em dia.
Prova disso é já se tornou comum, nos dias atuais, ver pais e filhos compartilhando a mesma paixão por vídeo games, equipamentos eletrônicos (smartphones, notebooks, consoles, aparelhos de mp3), redes sociais e rock`n`roll. Enfim, não existem mais aqueles conceitos de “coisa de velho” e “coisa de jovem”. Contudo, muito embora esse fato oculte a diferença de idade entre pais e filhos e nos induza a crer que o “conflito de gerações” foi, de uma vez por todas, sepultado, o fato é que o “novo” existe de verdade e que somos nós, os “jovens” de 30 e 40 anos, que não vemos “que a idade sempre vem”.
sábado, 26 de junho de 2010
Eu não sei nadar
Ser mulher nunca foi fácil. Em nenhum período ou lugar. Afinal, as mulheres têm, basicamente, duas alternativas na vida. A primeira e a mais tradicional delas é assumir a condição de dependente do marido. A outra possibilidade é suportar toda responsabilidade que decorre da independência feminina e da criação solitária dos filhos.
Foi assim com as minhas bisavós, a minha avó materna e a minha mãe. Umas mais bem sucedidas do que as outras, mas todas, sem exceção, tendo de assumir funções na vida que, a princípio, não lhes competiam.
A viuvez prematura da minha bisavó Stela, por exemplo, levou uma moça bem nascida e bem casada a transformar o confortável casarão onde vivia numa pensão na qual ela trabalhou por longos e duros anos, até conseguir casar a única filha mulher e concluir a formação impecável que ofereceu aos cinco filhos homens.
Do outro lado da família, a minha bisavó Ana chegou a apontar uma arma contra um quitandeiro para garantir os mantimentos necessários para alimentar a minha avó e as minhas tias-avós, enquanto o ordenado do meu bisavô não chegava a Manaus, numa época em que não existiam bancos capazes de transferir recursos com a facilidade a que estamos acostumados e que o transporte para aquela região era ainda mais precário do que o de hoje em dia.
Depois disso, já de volta ao Rio de Janeiro, a bisa Ana ainda teve de encarar a viuvez precoce e a obrigação de sustentar as três filhas pequenas, tocando piano em salas de cinema e costurando para fora. Mesmo assim, o dinheiro que ela ganhava não dava para pagar os aluguéis dos imóveis locados na região central da cidade. O jeito, então, foi arranjar uma mobília dobrável e contratar um burro-sem-rabo para fazer a mudança a cada três meses de aluguel atrasado.
Contudo, nem mesmo o sucesso das empreitadas dessas duas mulheres fantásticas, que, no final de suas vidas, conseguiram casar bem as filhas moças e fornecer uma educação excepcional para os rapazes, foi suficiente para evitar que a as futuras gerações de mulheres da família passassem por revezes e que tivessem de enfrentar o mesmo sofrimento e as mesmas dificuldades por que elas haviam passado.
Minha avó materna, seguindo a sina familiar, também enviuvou cedo, vindo a adoecer logo após a sua aposentadoria e a minha mãe, bom a minha mãe se separou duas vezes e, assim como a sua avó Ana, passou por poucas e boas para terminar de formar as três filhas.
Vocês podem admirar - do mesmo modo como eu admiro - a história de vida dessas mulheres, mas, como legítima sucessora da linhagem de mulheres duronas da minha família, posso afirmar que não é nada fácil ser como elas foram. Sim, pois, ao contrário do que narram românticas biografias, talvez não exista nada mais difícil na vida de uma mulher do que abrir mão do direito de ser apenas mulher.
Volta e meia, dá uma vontade louca de dar um chilique, de fazer uma chantagem emocional, de pedir atenção e carinho, de ser mimada, cuidada, e - o que é ainda melhor - ser compreendida, amada e admirada com um ser feminino, dotado de grande sensibilidade.
Tanto é assim que, às vezes, me pego pensando em que momento exato da minha vida abri mão do direito de ser vista, amada e admirada como mulher. Terá sido na infância, quando assumi a administração da casa e os cuidados da minha avó doente? Ou terá sido por que tive que conviver e, desde cedo, dividir o espaço e a atenção com uma irmã ultra dengosa que acabei endurecendo? Afinal, alguém tinha de manter o equilíbrio emocional e a objetividade em meio às crises familiares que enfrentamos juntas.
Pode ter sido a infância sim, mas a adolescência também não ajudou muito a desenvolver o meu lado feminino. O afastamento abrupto do meu pai - com a consequente perda do suporte masculino -, somado à maternidade ainda na condição de solteira - que me fez ir à luta sozinha - e à primeira decepção amorosa, aos quinze anos de idade, quando prometi a mim mesma que nunca mais choraria por amor, não favoreceram muito o florescimento da Afrodite até então reprimida.
O fato é que todas essas situações, isoladamente ou somadas umas às outras, me levaram a construir uma espécie de barreira de contenção do mar revolto que habita o interior de toda mulher e que - muito embora seja doloroso passar a vida sem se deixar levar pelas marés da feminilidade -, no fundo, eu sofro mesmo é de um grande temor de ver essa barreira, meticulosamente projetada, ir a baixo. Afinal, eu não sei nadar nessas águas turbulentas e não tenho certeza se conseguiria aprender a tempo de me livrar de um eventual afogamento.
Foi assim com as minhas bisavós, a minha avó materna e a minha mãe. Umas mais bem sucedidas do que as outras, mas todas, sem exceção, tendo de assumir funções na vida que, a princípio, não lhes competiam.
A viuvez prematura da minha bisavó Stela, por exemplo, levou uma moça bem nascida e bem casada a transformar o confortável casarão onde vivia numa pensão na qual ela trabalhou por longos e duros anos, até conseguir casar a única filha mulher e concluir a formação impecável que ofereceu aos cinco filhos homens.
Do outro lado da família, a minha bisavó Ana chegou a apontar uma arma contra um quitandeiro para garantir os mantimentos necessários para alimentar a minha avó e as minhas tias-avós, enquanto o ordenado do meu bisavô não chegava a Manaus, numa época em que não existiam bancos capazes de transferir recursos com a facilidade a que estamos acostumados e que o transporte para aquela região era ainda mais precário do que o de hoje em dia.
Depois disso, já de volta ao Rio de Janeiro, a bisa Ana ainda teve de encarar a viuvez precoce e a obrigação de sustentar as três filhas pequenas, tocando piano em salas de cinema e costurando para fora. Mesmo assim, o dinheiro que ela ganhava não dava para pagar os aluguéis dos imóveis locados na região central da cidade. O jeito, então, foi arranjar uma mobília dobrável e contratar um burro-sem-rabo para fazer a mudança a cada três meses de aluguel atrasado.
Contudo, nem mesmo o sucesso das empreitadas dessas duas mulheres fantásticas, que, no final de suas vidas, conseguiram casar bem as filhas moças e fornecer uma educação excepcional para os rapazes, foi suficiente para evitar que a as futuras gerações de mulheres da família passassem por revezes e que tivessem de enfrentar o mesmo sofrimento e as mesmas dificuldades por que elas haviam passado.
Minha avó materna, seguindo a sina familiar, também enviuvou cedo, vindo a adoecer logo após a sua aposentadoria e a minha mãe, bom a minha mãe se separou duas vezes e, assim como a sua avó Ana, passou por poucas e boas para terminar de formar as três filhas.
Vocês podem admirar - do mesmo modo como eu admiro - a história de vida dessas mulheres, mas, como legítima sucessora da linhagem de mulheres duronas da minha família, posso afirmar que não é nada fácil ser como elas foram. Sim, pois, ao contrário do que narram românticas biografias, talvez não exista nada mais difícil na vida de uma mulher do que abrir mão do direito de ser apenas mulher.
Volta e meia, dá uma vontade louca de dar um chilique, de fazer uma chantagem emocional, de pedir atenção e carinho, de ser mimada, cuidada, e - o que é ainda melhor - ser compreendida, amada e admirada com um ser feminino, dotado de grande sensibilidade.
Tanto é assim que, às vezes, me pego pensando em que momento exato da minha vida abri mão do direito de ser vista, amada e admirada como mulher. Terá sido na infância, quando assumi a administração da casa e os cuidados da minha avó doente? Ou terá sido por que tive que conviver e, desde cedo, dividir o espaço e a atenção com uma irmã ultra dengosa que acabei endurecendo? Afinal, alguém tinha de manter o equilíbrio emocional e a objetividade em meio às crises familiares que enfrentamos juntas.
Pode ter sido a infância sim, mas a adolescência também não ajudou muito a desenvolver o meu lado feminino. O afastamento abrupto do meu pai - com a consequente perda do suporte masculino -, somado à maternidade ainda na condição de solteira - que me fez ir à luta sozinha - e à primeira decepção amorosa, aos quinze anos de idade, quando prometi a mim mesma que nunca mais choraria por amor, não favoreceram muito o florescimento da Afrodite até então reprimida.
O fato é que todas essas situações, isoladamente ou somadas umas às outras, me levaram a construir uma espécie de barreira de contenção do mar revolto que habita o interior de toda mulher e que - muito embora seja doloroso passar a vida sem se deixar levar pelas marés da feminilidade -, no fundo, eu sofro mesmo é de um grande temor de ver essa barreira, meticulosamente projetada, ir a baixo. Afinal, eu não sei nadar nessas águas turbulentas e não tenho certeza se conseguiria aprender a tempo de me livrar de um eventual afogamento.
Assinar:
Comentários (Atom)