domingo, 15 de junho de 2014

Educação pra quê?

Num ano em que tanto se criticou a qualidade da educação no Brasil, em que tanto se questionou para quem a Copa do Mundo estava sendo preparada e a quem ela iria favorecer, opto por abrir uma discussão um tanto mais filosófica: Educação pra quê? Afinal, pra que serve a educação, esse suposto remédio contra todas as mazelas? Educação serve para desenvolver o país, serve para viabilizar o crescimento econômico, serve para alavancar o desenvolvimento científico e tecnológico, serve para elevar o padrão de vida das pessoas e dos povos que mais se instruem? Pode ser. O conhecimento é uma arma poderosa e disso ninguém duvida. Mas a noção de educação se encerra aí? Domínio linguístico e vasto traquejo cultural são indicativos suficientes do grau de educação de uma pessoa? Enfim, essa não é uma questão filosófica nova e não tem encontrado respostas uníssonas. Concepções diferentes acerca do conceito de educação inclusive originaram Ordens distintas dentro da Igreja Católica. Ordens distintas, que, nesse momento, se fundem na pessoa do jesuíta Mario Jorge Bergoglio, atual Papa Francisco, fato que comprova que, embora aparentemente antagônicas, as concepções de São Francisco de Assis e de Santo Inácio de Loyola sobre a formação humana e social não chegam a ser inconciliáveis. É possível sim unir conhecimento técnico e desenvolvimento espiritual e humano, aliás este deveria ser o ideal estabelecido por qualquer sociedade. Porém é também possível e necessário que se valorize cada um destes atributos pessoais isoladamente. Não existe hierarquia de valor entre uma pessoa bem instruída e outra dotada de requinte espiritual. Ambas têm valor e merecem respeito. O conhecimento não vem de graça, muito pelo contrário, ele costuma ser fruto de muito esforço e dedicação, mas não faz de uma pessoa um ser humano melhor se este conhecimento for adquirido à custa de perdas espirituais e humanitárias. O conhecimento sozinho realiza muitas coisas, boas ou más, mas não é capaz de produzir uma sociedade melhor, se - ao educar-se, instruir-se e informar-se mais - seus cidadãos forem abrindo mão do respeito pelo próximo, dos bons modos, da elegância, da paciência, da tolerância e das mais rudimentares noções de humanidade. Assim, se é certo que uma sociedade que não premie e não valorize adequadamente a educação formal, que seja composta por indivíduos ignorantes e intelectualmente preguiçosos, terá enormes dificuldades em se desenvolver econômica, científica e tecnologicamente, é certo também que uma sociedade onde os valores humanos e espirituais estejam sendo colocados de lado não logrará progresso social e democrático. Em resumo: para que o conhecimento não nos “troglotize” de vez ou para que a desvalorização do profissional qualificado não termine resultando em um retrocesso sociocultural inadmissível, faz-se necessário que lutemos por melhores condições de vida e por uma educação de qualidade que - por constituir-se como meio civilizatório e de desenvolvimento humano - se inicia justamente onde terminam as ofensas físicas e morais a bens, valores e pessoas, ricas ou pobres, autoridades públicas ou não. Em outras palavras, valho-me da consagrada frase de certo revolucionário argentino como o jesuíta Francisco: “Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”.

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