sexta-feira, 26 de outubro de 2012
O séquito dos asseclas lexicocidas
No Brasil, não existe racismo, não existe machismo, nem homofobia. Aliás, nunca existiu. Nenhum desses preconceitos. Isso é praga lá do estrangeiro. Nesse país hoje tão empenhado em reduzir as desigualdades sociais, em entender os gostos e as preferências da “nova classe média”, será que subsiste o preconceito linguístico? Será que o uso da língua segrega e estratifica a população?
Luciano Huck responderia que não. Afinal, seu programa de televisão promove concursos anuais de soletração nos quais alunos de escolas públicas de todas as regiões do país demonstram conhecimento incomum do vernáculo. Ali no auditório televisivo, adolescentes egressos das famílias menos favorecidas do país têm a rara oportunidade de dar vazão a toda pernosticidade contida no cotidiano e de serem admirados por isso.
E será que Caetano estava certo? A língua é minha pátria? Ou eu não tenho pátria? Será que, distante dos holofotes, os participantes de um concurso que premia um eruditismo tão fora de lugar encontrariam o mesmo espaço para empregar todo o seu domínio linguístico? Será que a pátria é para todos? Será que a língua é democrática ou será que o uso corrente de seus vocábulos mais peculiares seria privilégio de poucos?
Pigmaleão, personagem-título do romance de Bernard Shaw, não compreenderia a celeuma. A língua é um critério de estratificação social, não só pela pronúncia, mas também, é claro, pelo vocabulário empregado. Mas o eminente fonético, que assume o desafio de “adestrar” a desengonçada Eliza Doolitle*, vivia numa Inglaterra Vitoriana, sem espaço para a hipocrisia que impera em terras brasileiras.
No Reino Unido - lembremos - existe racismo, machismo, homofobia e preconceito linguístico. Lá, existem “poshes” e “chavs”. Ricos e pobres. Instruídos e ignorantes. Nobres e plebeus. Aqui, a existência de fenômeno similar é negada desde as mais profanas rodas de bar até os mais altos círculos acadêmicos.
Um estrangeiro que ouvisse isso seria capaz de concluir que o uso da Língua Portuguesa, então, seria um livre arbítrio e que as pessoas, no Brasil, poderiam sair impunemente empregando uma linguagem mais coloquial em ambientes seletos ou se utilizando de expressões pouco usuais quando bem entendessem, sem sofrer discriminações ou reprimendas por conta disso.
Mas, ao fazer uma experiência in loco, talvez ficasse desapontado ao descobrir que a língua falada pelos intelectuais destoa daquela que se ouve nos bares da cidade e em periferias, subúrbios, favelas e cantões deste país adentro. E há de se falar a língua do lugar. Afinal, falar difícil, dependendo de quem seja e em qual companhia esteja, pode ser um equívoco mortal, um desrespeito, uma ousadia. Falar feio “tá na moda”. Falar bonito é um privilégio de poucos.
A língua dos comuns dos mortais é o prêt-à-porter barato. A alta costura não cai bem em qualquer pessoa. Trajar-se do dialeto dos intelectuais e sair por aí desfilando expressões restritas às sumidades, sem ostentar posição para tanto, pode levar um desavisado a se deparar com o inóspito ambiente habitado pelo séquito dos asseclas lexicocidas, que, como animais acuados, rugem ante o menor sinal de concorrência e se unem num corporativismo atávico na luta pela preservação do controle sobre o pleno e exclusivíssimo emprego da parte mais nobre do nosso léxico.
* Personagem vivida por Audrey Hepburn, em “My Fair Lady”, adaptação cinematográfica do clássico da literatura britânica.
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