terça-feira, 22 de dezembro de 2009

1989

Na Política:
Caía o Muro de Berlim, última e definitiva etapa do processo de reabertura econômica do Leste Europeu, iniciado a partir de 1985 com a Perestroika de Gorbatchev. Era o fim da Guerra Fria. Ufa!
No Brasil, eram realizadas as primeiras eleições presidenciais após 25 anos do Golpe Militar. Brizola, Lula e Ulysses Guimarães, figuras marcantes na campanha das “Diretas Já”, com importantes atuações em todo o processo redemocratização, eram apontados como fortes candidatos ao cargo, mas terminaram - como todo mundo sabe - perdendo o histórico pleito para o, até então, desconhecido Fenando Collor de Mello.
1989 também entrou para a história como o ano dos protestos na Praça da Paz Celestial. As imagens do massacre em 4 de junho foram eternizadas como registros da tirania estatal. A China - pasmem -, mesmo 20 anos após os protestos, continua comunista e, apesar da reestruturação econômica que vem sofrendo, permanece sendo um país com pouco ou nenhum espaço concedido à liberdade de expressão.

No futebol:
O Botafogo conquistava o título de Campeão Carioca, quebrando um jejum de 21 anos sem vitórias. O modesto time comandado por Valdir Espinosa, cujo maior nome atendia pela alcunha de Paulinho Criciúma, entrou para a história ao vencer uma favoritíssima equipe rubro-negra - composta por Zico, Bebeto, Leonardo entre outros nomes de peso - e, com o resultado, atingido com marcado gol por Maurício aos 12` do 2º tempo, alcançar o feito de ser campeão carioca invicto.
1989 também foi o ano da consagração de uma dupla que ainda daria muitas alegrias ao futebol brasileiro. Juntos, naquele ano, sob a batuta do técnico Sebastião Lazaroni (?), então comandante da seleção brasileira, Romário e Bebeto quebravam um jejum de 40 anos sem títulos na competição latino-americana, conquistando, em pleno Maracanã, - na última edição da competição no país - o nosso quarto título da Copa América. Era o reencontro da seleção canarinho com a sua história de vitórias. De lá pra cá, conquistamos duas Copas do Mundo, três Copas das Confederações e mais quatro títulos da Copa América, sendo os dois últimos em cima da nossa arqui-rival Argentina. Detalhe: a próxima edição será realizada em solo portenho. Imagina só: é a oportunidade perfeita para entubar o tri vice nos hermanos. Na casa dos caras! Visitinha indigesta, hein?
Em tempo: o título do BR-89 foi cruzmaltino, mas o artilheiro da competição, com 11 gols, foi Túlio, então jogador do Goiás, que, anos mais tarde, no BR-95, já como Maravilha, atingiria a meta 23 vezes.

No Cockpit:
Alain Prost se sagraria campeão da temporada. Sim, isso mesmo. O vilão francês conseguiu. Após atacar de Dick Vigarista total e tirar - no tapetão - aquilo que, na pista, embora tenha tentado, não foi competente o suficiente para evitar, a saber: a brilhantes vitória de Ayrton Senna em Suzuka. Todavia, naquele inesquecível 22 de outubro de 1989, os fãs do automobilismo espalhados pelos quatro cantos do mundo souberam quem havia vencido e GP do Japão e já reconheciam naquele incansável e destemido piloto brasieliro o maior corredor de todos os tempos.

Nos palcos:
1989 foi uma ano de muitas perdas. Era o ano do adeus a Luiz Gonzaga, o nosso Rei do Baião, e ao imortal Maluco Beleza. Raul Seixas nos deixava na manhã do dia 21 de agosto. Morria não. Como ele costumava dizer: "Ninguém morre, as pessoas despertam do sonho da vida.". Naquela manhã de segunda-feira, então, quando seu corpo foi encontrado, Raulzito teria, enfim, despertado de um sonho, um sonho que, ao sonhar junto com tanta gente, acabou se tornando realidade.
Também era o ano do adeus de Cazuza aos palcos. Seu último show, realizado no dia 24 de janeiro de 1989, não fluiu nada bem. Em alguns momentos, Cazuza chegou a insultar a plateia. Depois justificou a sua atitude, dizendo que se sentia incomodado com o olhar de pena das pessoas. Que jeito! Ele era pele e osso. A apresentação precisava ser interrompida seguidas vezes para que ele pudesse respirar com a ajuda de balões de oxigênio. Mas o Exagerado ainda encontraria fôlego para gravar o último dos cinco álbuns da sua meteórica carreira solo. Em LP duplo, o álbum "Burguesia" chegava às lojas naquele ano, trazendo sucessos como a faixa título. Destaque também para a linda “Mulher sem razão”, mais uma das belas composições da parceria formada com Bebel Gilberto e Dé Palmeira, sucesso na voz de Adriana Calcanhoto, tal como “Mais Feliz”. “Preciso dizer que te amo”, eternizada na versão de Marina Lima, fecha a trilogia.
Compensando as imensas baixas sofridas, o público brasileiro era agraciado com o surgimento de uma nova diva da MPB. Marisa Monte, dona de talento e bom gosto indiscutíveis, já chegou mostrando a que vinha. Simples assim.
Pra finalizar, o álbum "Quatro Estações" do Legião Urbana era lançado em grande estilo. O trabalho, que marcava uma mudança no perfil musical da banda, com letras que consagrariam o talento poético de Renato Russo, fez enorme sucesso e teve faixas como "Pais e Filhos" executadas à exaustão pelas rádios cariocas.

Nas pistas:
“Gostava de música americana, ia pro baile dançar todo fim de semana”. A introdução da música “Manuel”, sucesso do álbum “Ed Motta & Conexão Japeri”, nos dá a perfeita noção do cenário musical de 1989. Era o ano do tuntitum. Isso mesmo. Época do SynthPop de New Order (?), Depeche Mode, Human Leage, Eurythmics, Erasure e Pet Shop Boys. Enfim, em 1989, enquanto toda aquela irresistível batida britânica já fazia ferver as pistas de danças do mundo todo, o estilo musical sintetizado começava a pulsar mais intensamente na terra do tio Sam. Saiam das gravadoras estadunidenses singles como “Pure Energy” do Information Society, "Give me your love" do The Voice in Fashion [sic], “Easy” de Ice Mc. Ao lado desses, os belgas do Technotronic emplacavam “Move This” e “Pump Up the Jam” e os canadendes do Kon Kan [sic] estouravam com “I Beg you Pardon” e “Harry Whodini” (escrita assim mesmo, embora se tratasse de uma música escrita em homenagem ao meste do ilusionimo, Harry Houdini). Por fim, não podemos deixar de falar de Noel Pagan, autor de um dos maiores clássicos da época, a indescritível “Silent Morning”, identificado, por muitos, talvez pelo single “Like a Child”, talvez por sua nacionalidade norte-americana, como afiliado ao movimento FreeStyle, ao lado de figuras de Stevie B. e Tony Garcia. Uma injustiça a meu ver. “Silent Morning” funde claramente elementos do SynthPop e do FreeStyle, estando longe de ser uma autêntica funk melody, tais como os hits “In my eyes” e “Just like the Wind”. Seja como for, Noel foi copiado em quase (faltou o talento) tudo pelo maior representante do gênero no Brasil. Sim, ele mesmo: Latino e seu greatest hit “Me leva”. Fazer o quê?

Nas telonas:
1989 foi marcado pelo enorme sucesso de “Sociedade dos Poetas Mortos”, mas entrou para história mesmo como sendo o ano do nascimento de um dos mais rentáveis gêneros cinematográficos da história: a comédia romântica. Escaleça-se: em 1989, “Harry e Sally”, comédia estrelada por Billy Cristal e Meg Ryan (imbatível no gênero), considerada, por muitos, como a primeira comédia romântica, ou, pelo menos, a primeira tentativa financeiramente bem-sucedida dos estúdios de Hollywood de falar de amor de um jeito divertido, chegou às salas de cinema do mundo todo, mudando definitivamente o perfil dos filmes românticos produzidos pela meca californiana. Justiça seja feita: Woody Allen sempre produziu esse tipo de comédia e, aliás, em 1989, dirigiu um dos “Contos de Nova York” que é de passar mal de rir. “Édipo Arrasado” foi, sem dúvida, o melhor dos três contos daquela obra coletiva. Scorsese nem tanto, mas Coppola ficou devendo feio nessa.

(?) 1 - Sebastião Lazaroni? Quem é esse cidadão?, devem estar se perguntando os mais jovens. Pois é, esse ilustre desconhecido fez parte da história da seleção brasileira de futebol. Believe or not.
- Por onde anda esse cidadão?, devem se perguntar os mais velhos. Bom, o que posso dizer é que, longe dos holofotes da imprensa esportiva brasileira, o técnico - com a passagem mais apagada das últimas décadas, quiçá da história da seleção brasileira - vem comandando equipes inexpressivas do futebol internacional e até conquistando um ou outro título mundo afora. Nada mal para quem ganha em euro.
(?) 2 Há muita controvérsia acerca da inclusão do New Order no movimento denominado SynthPop. É que a banda formada por integrantes remanescentes do Joy Division, após a morte do seu líder, o vocalista Ian Curtis, tem fãs muito ardorosos e que defendem que o New Order não pode ser visto como uma banda de som eletrônico qualquer, tendo em vista a qualidade de seus músicos e a sua origem roqueira. Acontece que há um certo exagero por detrás desse argumento, pois tanto o Depeche Mode como as outras bandas que citei como integrantes desse movimento têm como característica, justamente, a qualidade musical. A história de músicos por formação (na maioria das vezes, egressos de experiências musicais ligadas ao Rock) que começaram a brincar com o sintetizador e terminaram criando um som tão inovador é recorrente e explica porque a música eletrônica produzida nessa época - diferentemente da que veio em seguida - era tão boa.
[sic], que, em latim, significa "Sic et simpliciter" e, em bom Português, quer dizer "assim e simplesmente", serve pra enfatizar que aquilo que se lê é exatamente aquilo "pura e simplesmente". Pois é. Certas bandas de 1989, você pode não acreditar, mas atendiam por nomes como Kon Kan e The Voice in Fashion. O leitor pode até duvidar, mas aposto como conhece os hits dessas bandas de nomes esdrúxulos. Simplesmente isso.

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