sábado, 26 de junho de 2010

Eu não sei nadar

Ser mulher nunca foi fácil. Em nenhum período ou lugar. Afinal, as mulheres têm, basicamente, duas alternativas na vida. A primeira e a mais tradicional delas é assumir a condição de dependente do marido. A outra possibilidade é suportar toda responsabilidade que decorre da independência feminina e da criação solitária dos filhos.
Foi assim com as minhas bisavós, a minha avó materna e a minha mãe. Umas mais bem sucedidas do que as outras, mas todas, sem exceção, tendo de assumir funções na vida que, a princípio, não lhes competiam.
A viuvez prematura da minha bisavó Stela, por exemplo, levou uma moça bem nascida e bem casada a transformar o confortável casarão onde vivia numa pensão na qual ela trabalhou por longos e duros anos, até conseguir casar a única filha mulher e concluir a formação impecável que ofereceu aos cinco filhos homens.
Do outro lado da família, a minha bisavó Ana chegou a apontar uma arma contra um quitandeiro para garantir os mantimentos necessários para alimentar a minha avó e as minhas tias-avós, enquanto o ordenado do meu bisavô não chegava a Manaus, numa época em que não existiam bancos capazes de transferir recursos com a facilidade a que estamos acostumados e que o transporte para aquela região era ainda mais precário do que o de hoje em dia.
Depois disso, já de volta ao Rio de Janeiro, a bisa Ana ainda teve de encarar a viuvez precoce e a obrigação de sustentar as três filhas pequenas, tocando piano em salas de cinema e costurando para fora. Mesmo assim, o dinheiro que ela ganhava não dava para pagar os aluguéis dos imóveis locados na região central da cidade. O jeito, então, foi arranjar uma mobília dobrável e contratar um burro-sem-rabo para fazer a mudança a cada três meses de aluguel atrasado.
Contudo, nem mesmo o sucesso das empreitadas dessas duas mulheres fantásticas, que, no final de suas vidas, conseguiram casar bem as filhas moças e fornecer uma educação excepcional para os rapazes, foi suficiente para evitar que a as futuras gerações de mulheres da família passassem por revezes e que tivessem de enfrentar o mesmo sofrimento e as mesmas dificuldades por que elas haviam passado.
Minha avó materna, seguindo a sina familiar, também enviuvou cedo, vindo a adoecer logo após a sua aposentadoria e a minha mãe, bom a minha mãe se separou duas vezes e, assim como a sua avó Ana, passou por poucas e boas para terminar de formar as três filhas.
Vocês podem admirar - do mesmo modo como eu admiro - a história de vida dessas mulheres, mas, como legítima sucessora da linhagem de mulheres duronas da minha família, posso afirmar que não é nada fácil ser como elas foram. Sim, pois, ao contrário do que narram românticas biografias, talvez não exista nada mais difícil na vida de uma mulher do que abrir mão do direito de ser apenas mulher.
Volta e meia, dá uma vontade louca de dar um chilique, de fazer uma chantagem emocional, de pedir atenção e carinho, de ser mimada, cuidada, e - o que é ainda melhor - ser compreendida, amada e admirada com um ser feminino, dotado de grande sensibilidade.
Tanto é assim que, às vezes, me pego pensando em que momento exato da minha vida abri mão do direito de ser vista, amada e admirada como mulher. Terá sido na infância, quando assumi a administração da casa e os cuidados da minha avó doente? Ou terá sido por que tive que conviver e, desde cedo, dividir o espaço e a atenção com uma irmã ultra dengosa que acabei endurecendo? Afinal, alguém tinha de manter o equilíbrio emocional e a objetividade em meio às crises familiares que enfrentamos juntas.
Pode ter sido a infância sim, mas a adolescência também não ajudou muito a desenvolver o meu lado feminino. O afastamento abrupto do meu pai - com a consequente perda do suporte masculino -, somado à maternidade ainda na condição de solteira - que me fez ir à luta sozinha - e à primeira decepção amorosa, aos quinze anos de idade, quando prometi a mim mesma que nunca mais choraria por amor, não favoreceram muito o florescimento da Afrodite até então reprimida.
O fato é que todas essas situações, isoladamente ou somadas umas às outras, me levaram a construir uma espécie de barreira de contenção do mar revolto que habita o interior de toda mulher e que - muito embora seja doloroso passar a vida sem se deixar levar pelas marés da feminilidade -, no fundo, eu sofro mesmo é de um grande temor de ver essa barreira, meticulosamente projetada, ir a baixo. Afinal, eu não sei nadar nessas águas turbulentas e não tenho certeza se conseguiria aprender a tempo de me livrar de um eventual afogamento.

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. O medo do eu...
    Meu também.
    A reflexão é o caminho, de todas nós, mais fácil ou não, mas em frente e subindo !
    Fã.
    Bjjs,
    Aninha.

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  3. Fantástico: Afrodite fez-se presente na poesia. Beijão.

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